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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

“Amor não correspondido”: discurso de adolescentes que tentaram suicídio



O suicídio é definido como o ato intencional de tirar a própria vida, iniciado e levado a cabo, por uma pessoa com conhecimento ou expectativa de resultado fatal. Configura-se como uma ação consciente de autodestruição que envolve a tríade: Vontade de morrer, de ser morto e de matar. Classificado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como uma violência auto infligida e que já é visto como um problema de saúde pública. Estima-se que, para cada caso, existem pelo menos dez tentativas que exigem atenção dos profissionais. Para cada tentativa de suicídio registrada, existem quatro não conhecidas. A mortalidade por suicídio aumentou 60% nos últimos 45 anos, situando-o entre as dez causas mais frequentes de morte na população entre 15 e 44 anos. Discorrer sobre suicídio na fase da adolescência é uma necessidade, pois as estatísticas têm demonstrado que essa taxa tem crescido nos últimos anos. Os adolescentes estão entre os grupos mais vulneráveis às experiências sexuais, ao contato com as drogas lícitas e ilícitas, podendo desencadear atitudes que expõem a saúde e a vida. Essas experiências muitas vezes os surpreendem com gravidez não planejada, conflitos interpessoais e enfrentamento de suas perdas.
Os participantes do estudo foram doze adolescentes, admitidos em um hospital de emergência, em Fortaleza, Ceará, Brasil, por tentativa de suicídio por qualquer mecanismo. Realizou-se no período de março a abril de 2005 e entre os sujeitos da pesquisa, não houve relatos de tratamento psiquiátrico anterior.

Caracterização dos participantes e do cenário cultural


A estrutura familiar de todos os participantes do estudo apresentava fragilidade socioeconômica, além de fragilidade de vínculos. Observou- se que a dissolução dos vínculos familiares, associada às dificuldades financeiras, tem contribuído para fomentar a ideação suicida e fazer com que o adolescente chegue a sua concretização. Percebe-se que a perda ou rompimento dos vínculos origina sofrimento e leva o indivíduo à descrença de si mesmo, tornando- o frágil e com baixa autoestima. (VIEIRA; FREITAS; PORDEUS; LIRA; E SILVA, 2009 apud GOMES e PEREIRA, 2005).
No estudo, os adolescentes apontaram comorazões para as tentativas de suicídio os problemas denatureza relacional, amorosa e familiar; contudo, o rompimento com a pessoa amada foi referido como peça-chave. Enfim, o amor não correspondido significa um símbolo no qual o adolescente transfere e projeta sentimentos complementares ou ambíguos. VIEIRA; FREITAS; PORDEUS; LIRA; E SILVA, 2009 apud MINAYO, 1998, relacionando a complementaridade e ambigüidade de sentimentos, ressalta, em estudo sobre à auto violência, que o fenômeno do suicídio está ligado ao seu caráter revelador de complexas relações sociais e pessoais. O rompimento do relacionamento amoroso acarretou, aos adolescentes do estudo, conflitos para os quais não houve, por parte dos adolescentes, mecanismos eficazes de enfrentamento. O contato com situações inesperadas, para as quais o jovem não consegue vislumbrar uma solução concreta, acaba por acarretar o estresse. Segundo VIEIRA; FREITAS; PORDEUS; LIRA; E SILVA, 2009 apud HELMAN, 2003, a importância das respostas psicológicas e das estratégias de resistência do indivíduo ao confrontar o fator de estresse passa pela sua subjetividade, desencadeando reações psicológicas mais extremas, como depressão, isolamento, ou mesmo o suicídio.
A, feminino, 18 anos, morava só, na periferia de Fortaleza. É filha adotiva e, segundo sua irmã, durante a infância e adolescência, era rebelde e tinha má conduta: “Ela não quis nada com a vida”. A é mãe de um bebê de seis meses e justificou sua tentativa suicida por que: “O pai da minha filha, ele gosta de outra, aí pensei em me matar e tomei veneno pra rato”.
Outro relato de “amor” não correspondido pode estar relacionado à necessidade de sentir-se querida no âmbito familiar: “Tudo que eu preciso minha tia dá, financeiramente, escola, e o que mais falta é carinho” (C, feminino, 18 anos).
Esses relatos denotam como razões para as tentativas suicidas os problemas de natureza relacional, amorosa e familiar; contudo, o rompimento com a pessoa amada foi referido como ponto crucial, impulsionando-os à concretização da ideia suicida.
O significado do amor não correspondido relaciona- se ao amor da família, da mãe, da inexistência de harmonia e respeito à família; não demonstraçõesde carinho, das relações que se estabelecemna escola, da construção imaginária doque seja um “casamento”, enfim, esse amor não correspondido significa um símbolo ao qual oadolescente transfere e projeta sentimentos complementares e ambíguos. 
 [...] Estar vivo? “É um presente de Deus” [...]. Essa foi a fala de cinco adolescentes quando solicitados a falar sobre o que representava estar vivo. Três afirmaram que não sabiam responder. Um deles achava que “não representava nada”, outro não respondeu, outro afirmou que não “conseguia viver sem o namorado” e um disse que neste ato “via a possibilidade de mudar a vida”.
Associar “estar vivo” a “ um presente de Deus” pode sugerir a carência em várias dimensões afetivas e autoestima comprometida. Ao analisar o discurso dos adolescentes sobre a representação de estar vivo, revelou-se que a tentativa de suicídio se configurou como a forma de expressão que o adolescente encontrou para exteriorizar uma solicitação de auxílio na busca de romper com o sofrimento acarretado pela rejeição. Corroborando esse pensamento, VIEIRA; FREITAS; PORDEUS; LIRA; E SILVA, 2009 apud VIANA, ZENKNER, SAKAE, ESCOBAR, 2008, certificam, em estudo sobre o suicídio no sul do Brasil, que a ideação suicida é vislumbrada como uma maneira de resolver problemas de ordem pessoal, antes mesmo de ter o objetivo de acabar com a própria vida. Apoiando o pensamento de Viana, em pesquisa acerca da tentativa de suicídio como via traumáticapara o ato suicida, VIEIRA; FREITAS; PORDEUS; LIRA; E SILVA, 2009 apud MACEDO, 2006, declarou que a tentativa de suicídio decorre da combinação do sofrimento psíquico extremo com a incapacidade em conceder figuralidade à dor psíquica, levando o ser humano a buscar meios para romper radicalmente com a essa dor. Como a atenção do adolescente está voltada para fora do lar e centrada nos grupos de amigos, colocando a família em segundo plano, as dificuldades relacionais entre os membros da família diminuem as possibilidades desses utilizarem suas habilidades para construírem estruturas flexíveis e de ter uma postura voltada para a superação dos problemas, potencializando os níveis de tensão e de crises. Nesse parâmetro, as tentativas de suicídio devem ser vistas como formas de comunicação de sofrimentos, geralmente dirigidas às pessoas mais próximas na medida em que esses indivíduos estão inseridos num contexto conjugal, familiar ou qualquer outra rede social. (VIEIRA; FREITAS; PORDEUS; LIRA; E SILVA, 2009apud D’OLIVEIRA in LIMA, 2004).
As respostas dos adolescentes quando questionados sobre a reação da família e amigos em relação ao seu ato suicida direcionaram- se para a desaprovação e incompreensão do ato: “Achava que ninguém queria me ver” (A, feminino, 18 anos). Outras verbalizações foram expressas: “Acusaram o menino, tão botando culpa no menino” (B, masculino, homossexual, 18 anos). “Pediram para eu não fazer mais isso” (H, feminino, 19 anos). “Não falou nada. Minha avó disse que se eu ficasse viva, nunca mais ia nem botar a cabeça para fora” (J, masculino, 19 anos). “Tu tá ficando doida, não devia ter feito isso” (C, feminino, 18 anos).
Quando um adolescente se depara com o insucesso da tentativa suicida, na maioria das vezes, enfrenta reações de indignação, surpresa, estranhamento, incompreensão. Outro ponto a salientar e que no modelo assistencial atual, não se constitui como prática, nos serviços de emergência. Os familiares que acompanhavam o adolescente no momento da hospitalização exteriorizaram a sua angústia em relação ao atendimento prestado pela equipe de saúde. Nesse contexto, argumenta-se que a inabilidade do profissional diante do suicida evidencia sua visão de mundo diante do fenômeno morte e das condições de trabalho inadequadas. A superlotação nos serviços de emergência deixa os profissionais impotentes e perplexos com a violência e a banalização da vida. No atendimento profissional da pessoa suicida, em emergências psiquiátricas e salas de recuperação anestésicas, os profissionais não compreendem e nem estão preparados para lidar com esse problema de saúde. Agressividade, preconceito e incompreensão foram constantes em seus discursos VIEIRA; FREITAS; PORDEUS; LIRA; E SILVA, 2009 apud SAMPAIO, 2000.
Contudo, é preciso se pôr no lugar do outro, tornar-se um protagonista importante na rede deapoio ao bem-estar desses jovens, no sentido de resgatar a valorização da vida. 
Diante das razões esboçadas pelos adolescentes e certas de que o tema solicita novas investigações, recomenda-se que os setores que atendem adolescentes discutam o suicídio e tenham como enfoque a valorização da vida; que haja ressignificação da prática de profissionais que trabalham em setores de emergência, no sentido de entender que esse evento está próximo de todos nós e tem possibilidades de prevenção; que ocorra a inserção da família nesse atendimento e, na impossibilidade, que os profissionais estejam sensíveis para referenciar aos órgãos que possam oferecer resolubilidade e discutir a temática com futuros profissionais para construir uma prática centrada na integralidade. E necessário que a sociedade “abrace” as políticas que valorizam a vida, compartilhe adversidades, resgate autoestima e redimensione a lógica do atendimento em saúde, buscando o atendimento de outras necessidades que não se restringem ao biológico, mas que se articule com os princípios do SUS.

Referência Bibliográfica

VIEIRA, Luiza Jane Eyre de Souza; FREITAS, Mary Landy Vasconcelos; PORDEUS, Augediva Maria Jucá; LIRA, Samira Valentim Gama; E SILVA, Juliana Guimarães, 2009. “Amor não correspondido”: discursos de adolescentes que tentaram suicídio. Ciência & Saúde Coletiva, 14(5):1825-1834. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232009000500024>. Acesso em: 20 de Outubro de 2015.


4 comentários:

  1. Muito bacana o artigo. É urgente que nos atentamos e munirmos de instrumentos teoricos e tecnicos para tratar essa questão delicada que atinge diretamente a prática da psicologia.

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  2. Muito bacana o artigo. É urgente que nos atentamos e munirmos de instrumentos teoricos e tecnicos para tratar essa questão delicada que atinge diretamente a prática da psicologia.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Ótimo artigo Nathalia ! Parabens !
    #precisamosfalarsobresuicidio

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